sexta-feira, 20 de abril de 2012

A Peste Bubônica


Peste bubônica   








 A história é melhor compreendida quando procuramos ter uma visão global do mundo que nos cerca .
Por uma história interdisciplinar !

Professor Claudio Coimbra




Introdução

Se você já assistiu a "Monty Python - Em busca do Cálice Sagrado", é provável que tenha uma boa idéia de como fica uma aldeia contaminada por peste. Ela é suja, até mesmo sórdida, e seus habitantes também são imundos. Além disso, existe um morador com um trabalho bastante específico. Ele anda com uma carroça pela cidade gritando "Tragam seus mortos!". Os outros aldeões estão dispostos a obedecer e alguns deles querem até mesmo jogar seus parentes ainda vivos na carroça.

Origem: Ásia
Peste negra veio da Ásia há 2.600 anos. A doença, que matou milhões de europeus, chegou pela Rota da Seda.








A cena foi feita para ser engraçada, mas, em muitos sentidos, não está muito distante da realidade.
  A peste é uma doença real e em muitas épocas da história humana os surtos desencadearam tentativas desesperadas de interromper sua disseminação. Durante as antigas pandemias de peste, algumas comunidades perseguiram e executaram minorias consideradas responsáveis pela doença. As autoridades também prendiam pessoas infectadas e suas famílias dentro de suas casas. As pessoas dentro dessa quarentena não tinham como trabalhar ou comprar comida, e a morte por inanição era uma possibilidade real. O número de mortes era tão alto que os corpos tinham de ser levados por carroças e enterrados em túmulos coletivos. Em razão do número de mortes na Inglaterra, atualmente existe menos diversidade genética no país do que havia no século XI

   Os coletores de corpos e as aldeias sujas podem parecer coisas do passado, principalmente em partes abastadas do mundo. Em alguns países, contudo, inclusive no Vietnã e na Índia, as pessoas ainda conseguem se lembrar das mais recentes epidemias de peste. Em várias partes do mundo a peste é endêmica, ou seja, ela existe o tempo todo, mas não necessariamente em proporções epidêmicas. Atualmente, as pessoas podem contrair a peste tanto em grandes cidades quanto em áreas mais remotas. Todo ano, existem de algumas centenas a milhares de novos casos ao redor do mundo.
Um bubão, o sintoma que identifica a peste bubônica







A peste é uma doença infecciosa causada por uma bactéria chamadaYersinia pestis. Ela se espalha por populações animais, inclusive humanas, por meio de picadas de pulgas infectadas. Essas pulgas geralmente se alimentam de ratos, e é por isso que um grande número de ratos mortos é sinal de uma epidemia iminente. A forma mais conhecida de peste, a peste bubônica, recebe esse nome por causa inchados ou bubões, que a doença causa.

A história da peste

Peste norte-americana
A última grande epidemia de peste nos Estados Unidos ocorreu em Los Angeles, Califórnia, de 1924 a 1925.





 Atualmente, algumas das doenças mais alarmantes são as letais que foram recentemente descobertas. Os cientistas isolaram a gripe aviária H5N1 em 1996. A disseminação de pessoa para pessoa é rara, mas o vírus tem um índice de mortalidade de quase 60% em humanos [fonte: OMS (site em inglês)]. Um vírus também causa o Ebola (em inglês), identificado em 1976. O Ebola tem um índice de mortalidade de 80% [fonte: CDC (site em inglês)]. O primeiro caso conhecido de HIV foi registrado na década de 50. Os cientistas isolaram o vírus responsável na década de 80 [fonte: Aegis (site em inglês)].
As pessoas reagiram ao aparecimento de cada uma dessas doenças com medo e apreensão. Atualmente, uma grande epidemia de peste desencadearia uma reação parecida. Ao contrário das novidades de hoje em dia, a peste, porém, surge de uma antiga bactéria e não de um novo vírus. Os pesquisadores acreditam que a Yersinia pestis divergiu da menos letalYersinia pseudotuberculosis há cerca de 20 mil anos [fonte: Huang]. Alguns acreditam que a peste vivia em ratos antes que os humanos existissem. Descrições de uma doença parecida com a peste também apareceram em textos antigos, inclusive na Bíblia

Além de ser antiga, a peste é virulenta, ou altamente contagiosa. Ela geralmente é considerada a causadora de três grandes pandemias, ou epidemias bastante disseminadas:
·         a peste de Justiniano durou de 542 a 546 d.C. Ela fez cerca de 100 milhões de vítimas na Europa, Ásia e África;
·         a peste negra se espalhou pela Europa em 1300. Cerca de um terço da população européia morreu. Houve um total de 50 millhões de mortes na Europa, na Ásia e na África;
·         a terceira pandemia começou em Cantão e em Hong Kong durante o fim do século XIX. Os navios transportaram a doença para cinco continentes. Treze milhões de pessoas morreram somente na Índia [fonte: OMS (site em inglês)].
Uma epidemia terrível, a grande peste de Londres, aconteceu durante o século XVI. A grande peste matou um quinto da população de Londres, mas a doença não se espalhou para outras partes do mundo. Em outras palavras, não evoluiu de epidemia para uma pandemia.
O isolamento de Eyam
Durante a grande peste de Londres, um alfaiate em Eyam, Derbyshire, recebeu uma entrega de pano infestada por pulgas. Depois disso, as pessoas começaram a adoecer. Como aconselhado pelo pároco da cidade, os moradores de Eyam decidiram se isolar. Como resultado, a doença não se espalhou para fora da cidade. Aprenda mais sobre a peste de Eyam no Eyam Museum (site em inglês).



Os médicos de peste usavam máscaras
com narizes longos e cheias de ervas
para afastar o ar nocivo


O isolamento de Eyam
Durante a grande peste de Londres, um alfaiate em Eyam, Derbyshire, recebeu uma entrega de pano infestada por pulgas. Depois disso, as pessoas começaram a adoecer. Como aconselhado pelo pároco da cidade, os moradores de Eyam decidiram se isolar.
 Como resultado, a doença não se espalhou para fora da cidade. Aprenda mais sobre a peste de Eyam no Eyam Museum (site em inglês).

Durante cada uma dessas epidemias, ninguém sabia o que causava a doença ou como ela se espalhava. Durante a peste negra, por exemplo, muitos acreditavam que a doença era provocada por gases tóxicos; então, as pessoas se concentravam em afastar o ar nocivo. Os médicos de peste, que costumavam ter pouco ou quase nenhum treinamento médico, usavam máscaras cheias de ervas para filtrar o ar. Em algumas cidades, as pessoas culpavam os cães e gatos pela doença. A resultante matança dos predadores naturais dos ratos pode ter incentivado a disseminação da doença. Em Roma, por outro lado, uma grande população de gatos selvagens pode ter oferecido proteção adicional às pessoas.
Registros históricos descrevem uma série de sintomas diferentes durante esses e outros surtos. Eles incluem irritações, náusea, sensibilidade à luz, diarréia e tosse. Bubões inchados e doloridos aparecem em quase todos os registros. Esse é um dos motivos pelos quais a peste leva a culpa por tantas pandemias.
A idéia de que a peste bubônica estava por trás dessas pandemias se tornou parte da sabedoria popular, é algo que todos sabem. Alguns pesquisadores, no entanto, têm dúvidas sobre isso. A seguir, vamos ver a bactéria por trás da peste e o porquê de alguns cientistas acreditarem que ela não tenha causado a peste negra.

A controvérsia da peste

Em 1894, os pesquisadores fizeram um grande avanço na pesquisa da peste. Dois médicos, Alexandre Yersin e Kitasato Shibasuburo, perceberam que a bactéria Yersinia pestis causava a peste. Em 1898, outro médico, Paul-Louis Simond, descobriu que as pulgas transmitiam a doença de ratos para as pessoas. Essas descobertas aconteceram durante a terceira pandemia e elas estabeleceram uma conexão direta entre a peste e esse surto em particular. Isso fez que pareça provável que a peste também tenha sido a causa da peste negra, da grande peste de Londres, da peste de Justiniano e de outras epidemias.
Os médicos que trabalhavam durante as pandemias mais antigas não tinham, no entanto, as ferramentas necessárias para diagnosticar doenças com precisão. O microscópio e o conceito de que os germes causam doenças apareceram durante o século XVI, muito depois de várias epidemias terem acabado. Também não existiam métodos exatos e padronizados para manter registros durante a maioria das pandemias de peste. Por essas razões, não existem muitas evidências concretas para provar que a peste estava por trás de todas elas. Uma equipe francesa afirma ter encontrado oDNA da Yersinia pestis em uma polpa de dente achada em um território onde foram enterradas pessoas na era da peste, mas outros pesquisadores não conseguiram reproduzir esses resultados.
Os pesquisadores também apontam alguns motivos pelos quais a peste pode não ter sido realmente a culpada. Alguns afirmam que a literatura histórica não menciona o desaparecimento dos ratos, o que geralmente ocorre antes de uma epidemia de peste. Outros dizem o contrário. Alguns cientistas alegam que a peste negra e outras epidemias se espalharam muito e com bastante rapidez porque as pulgas e os ratos foram seus transmissores.
Teorias alternativas para a doença por trás da peste negra e outras epidemias são o antraz e um vírus hemorrágico, como o Ebola. Evidências circunstanciais apoiam cada uma dessas teorias. As epidemias começavam de repente e pareciam acabar espontaneamente, o que é típico de alguns surtos de vírus. Alguns anos antes da grande peste de Londres, as pessoas começaram a depender de vacas domésticas para obter carne vermelha, em vez de caçarem animais selvagens. Isso tornou mais provável que o antraz transmitido pelos bovinos infectasse as pessoas. Não há, no entanto, uma indicação clara de um grande desaparecimento de vacas antes da grande peste.
Há controvérsia em relação a essas pandemias, mas nem todos pensam que a peste não foi a causadora. Como já foi mencionado, alguns epidemologistas afirmam que a peste pode ter se espalhado de pessoa para pessoa através da pulga humana, a Pulex irritans. Nesse caso, os ratos não precisariam levar as pulgas de um lugar ao outro: os humanos teriam feito esse trabalho. Outra teoria é a de que um outro tipo de infecção de peste, a peste pneumônica, tenha sido a responsável.
Nas duas seções seguintes, vamos ver a peste bubônica e aprender como ela se diferencia da pneumônica e de outros tipos de peste.
Peste e HIV
Uma das evidências de que a peste negra e outras pandemias surgiram de um vírus tem a ver com
uma proteína chamadaCCR5. Alguns vírus, inclusive o HIV, se unem à CCR5 e a utilizam para invadir as células imunológicas. Por causa de uma anomaliagenética, as células imunológicas de algumas pessoas não têm CCR5 ou possuem essas proteínas malformadas. Isso pode oferecer às pessoas uma certa resistência natural a determinados vírus.
Estudando o DNA dos corpos humanos, os pesquisadores descobriram que a mutação das CCR5 é muito mais comum atualmente do que era antes da peste negra. Teoricamente, a doença por trás da peste negra foi um vírus que usou as CCR5 para conseguir entrar nas células. As pessoas que sobreviveram à peste negra podem ter desenvolvido anomalias nas CCR5, uma característica genética que passaram para seus filhos. [fonte:PBS (site em inglês)].



Peste bubônica

A peste é uma doença transmitida por vetores, o que significa que necessita de um hospedeiro vivo para transmiti-la de um animal para o outro. Na maioria dos casos, uma determinada espécie de pulga, a Xenopsylla cheopis, é o vetor. Também conhecida como a pulga oriental de rato, a Xenopsylla cheopsis prefere se alimentar do sangue de ratos e outros roedores, que podem transmitir a peste.
A pulga oriental de rato tem uma característica física que a torna bastante eficaz na transmissão da peste. O sistema digestivo dela pode ficar obstruído por uma grande quantidade de bactérias da peste. Quando uma pulga obstruída pica um hospedeiro, ela costuma regurgitar o sangue infectado com peste dentro da ferida. As pulgas que não tendem a ficar obstruídas, como a pulga humana, ainda podem transmitir a peste levando a bactéria em suas bocas.


Uma pulga oriental de rato (Xenopsylla cheopsis)
infectada por peste e cheia de sangue


Depois de a pulga infectada picar o hospedeiro, as bactérias suprimem a resposta inflamatória natural do corpo. Elas também usam proteínas para se proteger contra o sistema imunológico. Por essas razões, a pessoa não percebe imediatamente que algo está errado.
As bactérias pegam uma carona até o nódulo linfático mais próximo, usando os glóbulos brancos para transportá-las. Assim que as bactérias alcançam um nódulo linfático, elas se multiplicam. Em razão da grande quantidade de bactérias e de endotoxinas em suas paredes celulares, o nódulo linfático começa a inchar. Em poucos dias, o nódulo se torna um bubão dolorido e do tamanho de um ovo. As defesas imunológicas naturais do corpo entram em ação, causando uma febre alta, em uma tentativa de matar as bactérias. Calafrios, dor muscular e fraqueza também são comuns.
Se a pulga infectada pica uma vítima na mão ou no braço, o bubão se forma nos nódulos linfáticos axilares, que ficam debaixo do braço. Se ela pica o pé ou a perna, o bubão se forma nos nódulos linfáticos inguinais, na virilha. Uma picada na cabeça causa um bubão nos nódulos linfáticos maxilares, no pescoço e maxilar. Se a pulga pica o torso de uma vítima, o bubão se forma na cavidade abdominal, onde os médicos podem não percebê-lo.
A menos que diversas pulgas infectadas por peste piquem uma pessoa, a peste bubônica geralmente provoca apenas um bubão. Às vezes, ela pode causar alguns bubões no mesmo agrupamento de nódulos linfáticos. Esse é um dos motivos pelos quais alguns pesquisadores duvidam que a peste bubônica tenha sido a causadora da peste negra e de outras pandemias. Alguns registros históricos descrevem que as vítimas estavam cobertas de bubões, o que geralmente não acontece na peste bubônica.
A seguir, vamos ver duas outras formas de peste e aprender como elas se diferenciam da peste bubônica.

Peste septicêmica e pneumônica

Além de ser virulenta, a peste é uma doença que se adapta. Ela pode viver nos corpos de roedores, gatos, pulgas e humanos. A peste também pode causar sintomas diferentes dependendo da maneira como penetra no corpo de uma pessoa. Todas essas habilidades vêm do DNA da bactéria, que transmite todas as informações necessárias para que ela se multiplique e deixe a pessoa doente.
Algumas vezes, substâncias infectadas por peste penetram no corpo através de ferimentos na pele. Por exemplo, alguém pode tocar em sangue infectado enquanto está tirando a pele de um roedor morto. Isso pode causar a peste septicêmica, que nem sempre forma bubões. Bactérias e toxinas da peste no sangue reduzem as defesas imunológicas do corpo. Isso causa febre (em inglês) alta, dor abdominal e fraqueza. Se não for tratada, ou se o sistema imunológico estiver enfraquecido de maneira irrecuperável, a peste septicêmica causa falência múltipla dos órgãos e morte. A peste septicêmica também pode ocorrer como uma complicação da peste bubônica.
Se uma pessoa inspira gotículas infectadas com a bactéria da peste, ela pode contrair a peste pneumônica primária. Isso pode acontecer quando alguém infectado tosse (em inglês) ou espirra. Gatos podem contrair a peste pneumônica e transmitir a doença para os humanos quando tossem ou espirram. Assim como a peste septicêmica, a pneumônica pode ser uma complicação da peste bubônica. Nesses casos, ela é conhecida como peste pneumônica secundária. A peste pneumônica provoca os sintomas típicos da pneumonia (em inglês), inclusive febre alta e tosse com sangue.
Geralmente, a peste pneumônica secundária não é tão contagiosa como a primária. Isso acontece porque as pessoas que contraem a peste pneumônica primária tendem a estar saudáveis e fortes quando são infectadas. Elas podem tossir com força suficiente para propelir gotículas infectadas no ar. As vítimas de peste pneumônica secundária, no entanto, geralmente já estão muito doentes quando a infecção chega aos pulmões. Elas nem sempre conseguem tossir com força suficiente para lançar partículas infectadas no ar. De qualquer modo, sem um tratamento antibiótico, a peste pneumônica é quase sempre fatal.
A pneumônica é a forma menos comum de peste, mas é a mais propensa a ser usada como arma biológica. Isso acontece porque a peste pneumônica é altamente contagiosa, letal e fácil de se espalhar. No passado, outras formas de peste também foram usadas como armas. De acordo com alguns registros, a peste negra começou depois que tropas invasoras jogaram corpos infectados com peste por cima dos muros de uma cidade sitiada. Também consta que as forças armadas japonesas jogaram bombas contendo pulgas infectadas sobre a China durante a Segunda Guerra Mundial [fonte: CNN (site em inglês)].
Além de causar as pestes pneumônicas e septicêmicas, a Yersinia pestis pode infectar outras partes do corpo quando entra em contato com elas. Se o sangue transporta a peste até o líquido cefalorraquidiano, que cerca o cérebro e a medula espinhal, isso pode causar peste na meninge. A peste também pode infectar tecidos da garganta, causando a peste na faringe.
Antes da descoberta de antibióticos, todas essas formas de peste podiam ser fatais. Atualmente, porém, um tratamento imediato, principalmente em casos de peste bubônica, oferece mais chances de sobrevivência. Apesar desses avanços, a peste ainda existe em muitas partes do mundo. A seguir, vamos ver o porquê.

Por que a peste existe atualmente?

Muito antes do desenvolvimento dos microscópios e antibióticos, muitas culturas associavam surtos de peste com ratos, principalmente ratos mortos. Isso se deve ao fato de a peste ser uma doença enzoótica, ou uma doença que vive primeiramente em animais. Os animais que costumam transmitir a peste são os arganazes, os gerbos selvagens e outros roedores. Os ratos, no entanto, são os mais comuns.

Um pesquisador retira pulgas de um rato em uma unidade de saúde pública especializada em peste bubônica na década de 50


Quando ratos infectados pela peste morrem, suas pulgas procuram novos hospedeiros. As pulgas geralmente preferem se alimentar de animais específicos, mas procuram outras fontes de alimento quando necessário. Assim, quando um surto de peste mata muitos ratos, as pulgas pulam para a fonte mais próxima de sangue. Quando as pessoas são essa fonte, a peste se torna uma doença epizoótica, ou uma doença que passa de animais para humanos. Muitas doenças epizoóticas, inclusive a gripe aviária, são particularmente letais para os humanos, que não têm resistência natural.
O conceito de resistência natural também pode estar por trás de surtos repentinos de peste. Quando a maioria dos ratos em uma determinada área morre por causa da peste, aqueles que sobrevivem têm imunidade natural. Eles passam essa imunidade para seus filhotes, mas ela se torna reduzida depois de diversas gerações. Então, os ratos que não têm essa imunidade acabam morrendo em razão da peste, que geralmente está presente na população de roedores. Alguns ratos sobrevivem e o ciclo começa novamente.
O fato de que os ratos são reservatórios naturais de peste é uma das razões pelas quais a doença é menos comum atualmente. Em muitas nações industrializadas, principalmente em áreas ricas, os ratos não são mais tão comuns como eram antes da Idade Média e durante esse período. Padrões de vida melhores e mais práticas de higiene reduziram a população de ratos, e com menos ratos existe uma menor quantidade de reservatórios da doença.
Os ratos, porém, como reservatórios naturais, também são a causa de a peste ainda existir. Em áreas empobrecidas e nações em desenvolvimento, os ratos ainda podem ser predominantes. Exterminar toda a espécie seria quase impossível e também afetaria o resto do ecossistema.
Em sociedades agrárias, as pessoas tendem a viver e trabalhar próximo de campos e depósitos onde vivem ratos. Além disso, um clima quente e solos arenosos são ideais para o desenvolvimento de pulgas de ratos. Lugares com essas duas características tendem a ser propensos ao aparecimento da peste. Exemplos de áreas como essas incluem o sudoeste dos EUA, assim como partes da América do Sul, África e Ásia. Na África, a maioria dos casos de peste ocorre em Madagascar e na Tanzânia. A maior parte dos casos nas Américas acontece no Brasil, e mais de 75% dos casos asiáticos acontecem no Vietnã [fonte: OMS (site em inglês)]. Apesar do enorme impacto que a peste negra e outras epidemias tiveram sobre a Europa, a peste não é comum nessa região atualmente, e não existe na Austrália ou na Antártida.
O comportamento humano também pode influenciar os surtos de peste. Por exemplo, em 1989, alimentos armazenados de uma safra excepcionalmente grande em Botsuana resultaram em uma população de ratos maior do que o normal. As pulgas desses ratos chegaram às pessoas e a peste começou a se espalhar. Em Moçambique, a prática de capturar ratos e tirar a pele deles provoca contaminações em mulheres e crianças [fonte: OMS (site em inglês)]. O desfolhamento durante a Guerra do Vietnã provavelmente contribuiu para uma epidemia depois que a guerra terminou. Alguns especialistas também acreditam que novos subúrbios no sudoeste dos EUA podem levar a mais casos de peste porque as pessoas se mudam para áreas naturalmente habitadas por ratos.

Tratamento e prevenção da peste

A peste bubônica tem uma série de sintomas característicos, mas às vezes pode ser difícil diagnosticá-la. Sem um bubão visível, os primeiros sintomas simplesmente se parecem com os da gripe. Se bubões se formam no abdômen, um médico pode pensar que a peste bubônica é uma apendicite (em inglês).
A peste bubônica é uma doença perigosa se não for tratada. Sem cuidados médicos, a peste pneumônica e a septicêmica são quase sempre fatais. Elas não costumam formar os bubões, que fazem que a peste seja percebida com mais facilidade. Portanto, os médicos fazem mais do que apenas procurar por bubões quando estão examinando e fazendo o diagnóstico. Eles também perguntam sobre exposição a ratos e outros roedores, principalmente em áreas que tendem a apresentar peste. O diagnóstico final muitas vezes é encontrado depois de examinar amostras de fluidos corporais através de ummicroscópio. Nos casos de suspeita de peste bubônica, o fluido retirado de um bubão geralmente é a melhor opção, já que ele costuma conter muitas bactérias. Os médicos também podem examinar o sangue, a saliva e o líquido cefalorraquidiano.
Sem tratamento, a peste bubônica é fatal em 60% dos casos, ao passo que a peste pneumônica é quase sempre fatal. Com um tratamento antibiótico imediato, dentro de 24 horas depois do aparecimento dos sintomas, o índice de mortalidade diminui de maneira significativa. Por essa razão, os pesquisadores do Instituto Pasteur desenvolveram um exame novo e mais rápido. O exame usa uma vareta em vez de microscópios e lâminas. E, ao contrário de procurar por bactérias, ele detecta a presença de uma molécula específica que faz parte da parede celular da Yersinia pestis. O exame pode confirmar um diagnóstico em cerca de 15 minutos. [fontes: BBC, New Scientist (sites em inglês)].
O tratamento eficaz contra a peste exige antibióticos

A estreptomicina é usada mais freqüentemente, mas a tetraciclina e a gentamicina também podem funcionar. Algumas vezes, os médicos receitam antibióticos para membros de uma família ou para pessoas que foram picadas por pulgas em áreas do mundo que tendem a apresentar peste. Os médicos também podem isolar a pessoa infectada, principalmente se ela tiver contraído a peste pneumônica

Os sintomas costumam melhorar depois de alguns dias de tratamento, mas os bubões podem levar semanas para voltar ao normal. No entanto, um tipo de peste resistente aos remédios apareceu em Moçambique.

Como a peste é uma doença perigosa, os médicos, em geral, têm de informar casos suspeitos às autoridades competentes. Nos Estados Unidos, o médico tem de notificar a vigilância sanitária local e estadual. O Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC) confirma o diagnóstico e informa a Organização Mundial da Saúde (OMS). No caso de uma guerra biológica, todas essas organizações estariam envolvidas no combate. Táticas prováveis incluiriam quarentenas e doses preventivas de antibióticos, principalmente em casos de peste pneumônica.
Os funcionários da saúde pública trabalham para prevenir surtos de peste, ensinando sobre a doença às pessoas. Eles também monitoram o número de casos suspeitos e da população de ratos. Por exemplo, grandes gerbos que vivem no Casaquistão podem transmitir peste. A peste geralmente aparece em humanos dois anos depois que esses gerbos chegam a uma determinada densidade populacional.
A peste pode parecer uma possibilidade remota para pessoas que vivem em casas limpas e com poucos roedores por perto. Os especialistas, no entanto, têm opiniões divergentes sobre a chance de haver uma pandemia de peste. Alguns acreditam que melhorias na higiene, assistência médica e controle da peste fazem que um surto mundial seja quase impossível.
 Outros pensam que a virulência excepcional da peste e sua capacidade de ser transmitida pelo ar em casos pneumônicos irão transcender qualquer tentativa humana de acabar com sua propagaçãoFonte : http://saude.hsw.uol.com.br

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